Sr. Bliss (Sr. Boaventura): Resenha do Livro Infantil de J.R.R. Tolkien
Quando pensamos em J.R.R. Tolkien, a mente vai imediatamente para o Senhor dos Anéis, para a Terra Média, para épicos de proporções imensas. O que pouca gente sabe é que Tolkien também criou — para os próprios filhos — uma pequena história ilustrada, leve, cheia de humor e com personagens completamente deliciosos. Essa história é Sr. Bliss, publicado no Brasil pela Editora Martins Fontes com o título original e mais recentemente pela Editora Harper Kids como Sr. Boaventura.
É um livro que encanta por razões completamente opostas às dos grandes épicos de Tolkien: aqui não há grandiosidade, não há destinos do mundo em jogo. Há um homem com chapéus muito altos, um carro amarelo com rodas vermelhas, um giracoelho, ursos educados e uma série de confusões que só crescem ao longo das páginas. E ilustrações feitas pelo próprio Tolkien, com um charme completamente único.
A origem do livro
Sr. Bliss foi criado por Tolkien nos anos 1930, originalmente como uma história contada e ilustrada para os filhos John, Michael, Christopher e Priscilla. O manuscrito original, com o texto em inglês e as ilustrações coloridas à mão pelo próprio Tolkien, ficou na família por décadas antes de ser publicado.
O livro só foi publicado em 1982 — quase dez anos após a morte de Tolkien — preservando o texto e as ilustrações originais em fac-símile do manuscrito. Isso significa que o que você vê no livro é exatamente o que Tolkien desenhou com suas próprias mãos para seus filhos: a caligrafia, as cores, os detalhes dos personagens. É um documento histórico e literário ao mesmo tempo.
Sobre o livro e as edições
A edição mais antiga no Brasil foi publicada pela Editora Martins Fontes com o título “Sr. Bliss”, apresentando o texto em inglês e português lado a lado. Mais recentemente, a Editora Harper Kids lançou uma nova edição com o nome Sr. Boaventura — uma tradução mais criativa do sobrenome “Bliss” (que em inglês significa “bem-aventurança” ou “felicidade”).
O livro tem 104 páginas em capa dura — um formato generoso que preserva bem as ilustrações originais. É um livro que também funciona como objeto colecionável para fãs de Tolkien, além de ser uma leitura genuinamente divertida para crianças.
O enredo: um carro e muitas confusões
O Sr. Bliss é conhecido em sua vizinhança por duas coisas: seus chapéus extremamente altos e seu animal de estimação peculiar, um Giracoelho — um híbrido imaginativo de girafa e coelho que fala e que começa a história mastigando o tapete do corredor.

Um belo dia, o Sr. Bliss toma uma decisão que mudará seu dia completamente: comprar um carro amarelo com rodas vermelhas. É sua primeira saída de carro — e as coisas desandam rapidamente.
Primeiro, ele colide com o Sr. Day, que voltava da horta com uma carreta cheia de repolhos. Como reparação, o Sr. Bliss oferece carona — e acaba amontoando os repolhos no carro. Logo depois, acontece outra colisão: desta vez com a Sra. Knight, que estava com uma carroça de bananas puxada por um burrinho. Resultado: as bananas vão em cima dos repolhos, a Sra. Knight em cima do Sr. Day, e o burrinho amarrado atrás do carro.
E as complicações só crescem. Ursos falantes aparecem. Uma floresta é atravessada. Cada solução gera um novo problema. O livro tem a estrutura de uma história em bola de neve — cada página adiciona mais um elemento absurdo à confusão, e a diversão está em ver até onde isso vai.

Os personagens
Sr. Bliss
O protagonista é encantador exatamente porque não é heroico — ele é desastrado, bem-intencionado e completamente incapaz de prever as consequências de suas decisões. A criança que está ouvindo a história imediatamente reconhece o tipo: o adulto que cria problemas tentando resolver problemas. Há algo universalmente cômico e afetuoso nessa figura.
O Giracoelho
O animal de estimação do Sr. Bliss é uma criação tolkieniana pura: completamente sem propósito narrativo além de ser maravilhoso. Um giracoelho que fala e mastiga tapetes não serve para nada na história — mas sua existência é um testemunho da imaginação lúdica de Tolkien, que criou criaturas impossíveis com a mesma facilidade que criava épicos.
Os vizinhos e os ursos
O Sr. Day, a Sra. Knight e os ursos são personagens secundários que funcionam como ingredientes adicionados à confusão. O que os torna divertidos é a reação absolutamente normal que têm a situações completamente absurdas — como se carregar repolhos, bananas, um burrinho e ursos no mesmo carro fosse apenas uma inconveniência menor.
As ilustrações de Tolkien
As ilustrações são um dos maiores atrativos do livro — e são completamente diferentes de qualquer ilustração contemporânea de livro infantil. Tolkien não era um ilustrador profissional, e isso aparece: as proporções são às vezes irregulares, os personagens têm um traço que pertence a outro tempo.
Mas exatamente por isso as ilustrações são únicas. Há uma qualidade artesanal, feita à mão com amor, que nenhuma produção digital consegue replicar. O carro amarelo com rodas vermelhas, o Giracoelho esticando o pescoço pela chaminé, o Sr. Bliss com seus chapéus absurdamente altos — todos esses elementos têm um charme que vem precisamente da imperfeição humana do traço.
Para crianças pequenas, as ilustrações são tão interessantes quanto o texto. Cada página tem detalhes para observar, personagens com expressões divertidas e uma paleta de cores que remete ao estilo artístico das décadas de 1930 e 1940.
Por que ler Sr. Bliss com seus filhos
Sr. Bliss não é um livro com lição. Não há moral, não há personagem que aprende algo e muda. A história não ensina valores nem constrói caráter — ela simplesmente diverte.
E isso, em si, é valioso. Nem todo livro precisa ter uma lição. Às vezes a leitura é apenas prazer puro — e ensinar às crianças que livros também existem para divertir, sem nenhuma outra agenda, é parte importante da formação de leitores.
Além disso, há algo único em apresentar para uma criança um livro que foi feito por um pai para seus próprios filhos. Quando você conta isso à criança — “esse livro foi criado por um pai para filhos como você, há quase cem anos” — a história ganha uma camada a mais. É uma conexão real entre gerações de leitores.
Para qual faixa etária
4 a 6 anos (com leitura em voz alta)
Nessa faixa, a criança vai adorar o absurdo das situações e os personagens peculiares. A linguagem é acessível na leitura em voz alta, e as ilustrações sustentam o interesse entre as páginas. A estrutura de “bola de neve” — cada capítulo adicionando um novo elemento à confusão — mantém a atenção bem.
6 a 9 anos (leitura independente ou compartilhada)
Crianças alfabetizadas podem ler sozinhas, mas a leitura compartilhada ainda é a melhor experiência. Rir junto das confusões do Sr. Bliss é melhor do que rir sozinho.
Adultos fãs de Tolkien
Para pais que amam Tolkien, o livro é uma descoberta deliciosa — um lado completamente diferente do autor que criou a Terra Média, leve e bem-humorado, preservado do jeito que foi feito originalmente.
Tolkien e a literatura infantil
Sr. Bliss não é o único livro infantil de Tolkien. O autor criou outras histórias para os filhos, entre elas as “Cartas de Papai Noel” — cartas ilustradas que ele escrevia fingindo ser o Papai Noel, com aventuras no Polo Norte envolvendo elfos e ursos polares. Essas cartas também foram publicadas postumamente.
Há também “O Hobbit”, que começou como história contada para os filhos e cresceu até se tornar o livro que conhecemos. A origem íntima e doméstica de muito do que Tolkien escreveu é uma parte fascinante de sua biografia que o Sr. Bliss ilustra de forma deliciosa.
Se você quiser explorar mais Tolkien com seus filhos, vale também buscar “Ferreiro de Bosque Grande” — outra obra menor do autor que funciona muito bem para crianças um pouco mais velhas.
Onde encontrar
A edição mais recente no Brasil é o Sr. Boaventura, pela Editora Harper Kids. É mais fácil de encontrar do que a edição antiga da Martins Fontes. A Harper Kids fez um trabalho cuidadoso de adaptar o título para o português de forma mais criativa, preservando o humor implícito no sobrenome do personagem — “Boaventura” captura bem a leveza e a boa sorte irônica que o nome “Bliss” carrega em inglês.
Para fãs de Tolkien que já têm a edição antiga da Martins Fontes, a nova edição da Harper Kids tem o diferencial de apresentar apenas o texto em português, sem a versão em inglês em paralelo — o que pode ser mais adequado para crianças mais novas que ainda estão aprendendo a ler. Para colecionadores, a edição bilíngue antiga tem um valor histórico maior.
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Perguntas Frequentes
Sr. Bliss e Sr. Boaventura são o mesmo livro?
Sim. “Sr. Bliss” é o título da edição mais antiga (Editora Martins Fontes, com texto em inglês e português). “Sr. Boaventura” é o título da edição mais recente pela Harper Kids, com o nome traduzido de forma mais criativa.
O livro é difícil de encontrar?
A edição antiga (Sr. Bliss, Martins Fontes) é mais rara e encontrada principalmente em sebos. A edição mais recente (Sr. Boaventura, Harper Kids) está mais disponível em livrarias e plataformas online.
O texto está em inglês ou português?
Depende da edição. A edição antiga da Martins Fontes apresenta texto em inglês e português lado a lado. A edição Harper Kids (Sr. Boaventura) está em português.
O livro é indicado para qual idade?
Funciona muito bem para crianças entre 4 e 9 anos. Para crianças menores, a leitura em voz alta com adulto é essencial. A partir dos 6-7 anos, podem ler sozinhas com ajuda ocasional.
Vale a pena comprar mesmo para quem não é fã de Tolkien?
Sim. O livro funciona completamente como história infantil independente — o nome do autor é um bônus para os adultos, não um requisito para a criança aproveitar. A história é divertida por si só.
As ilustrações são adequadas para crianças pequenas?
Sim. As ilustrações são coloridas, expressivas e totalmente adequadas para crianças. O estilo mais “antigo” do traço pode parecer diferente do que estão acostumadas, mas geralmente agrada — tem um charme peculiar que crianças reconhecem como especial.
Conclusão
Sr. Bliss é, sem dúvida, uma das descobertas mais deliciosas e inesperadas que você pode fazer como pai ou mãe leitor. É Tolkien sendo completamente diferente de tudo o que você conhece dele — leve, absurdo, genuinamente divertido, e ao mesmo tempo profundamente íntimo. Um pai criando uma história para seus filhos em noites de inverno inglês, desenhando com as próprias mãos os personagens que inventou naquela tarde.
O resultado tem uma qualidade que nenhuma produção contemporânea consegue replicar: a imperfeição amorosa de algo feito por alguém que amava seus filhos e queria apenas fazê-los rir. Isso sobrevive cem anos depois, e sobreviverá ao ler com seus filhos hoje.
Se você tiver a chance de comprar o livro, faça isso antes de contar para a criança quem é Tolkien. Deixe ela descobrir a história primeiro — o giracoelho, o carro amarelo, os ursos — e depois, quando ela estiver encantada, diga: “Você sabe que o homem que criou isso também criou O Hobbit e O Senhor dos Anéis?” A reação vai valer. É a melhor forma de plantar a semente para as grandes leituras que ainda virão. E se um dia seu filho perguntar “tem mais histórias desse autor?”, você terá a resposta mais maravilhosa possível: sim, e elas são ainda maiores.
Que legal esse livro ter as ilustrações do Tolkien! E quanta confusão esse sr. Bliss arrumou! Não quis ver o vÃdeo para conhecer a história pelo livro mesmo. Fiquei curiosa para saber como é o giracoelho… rs
As ilustrações não são nossaaaaaaaaaaaa que coisa mais profissional os desenhos do Tolkien… ehehehehe mas são uma “gracinha”…