Maternidade insana: Sobre as coisas que não podemos mudar

Imagem: Huffington Post

Quanto mais reflito, mais chego a conclusão que eu sou a “maternidade insana” em pessoa.

Imagine você jogando damas com seu filho. Ou jogo da velha. Você pode “decidir” se ele vai ganhar ou se ele vai perder. Você pode até escolher ensiná-lo perder e entender que o que importa é competir e ser feliz enquanto está jogando, mas a maioria das vezes você acaba escolhendo deixá-lo ganhar somente para ver seu rosto cheio de felicidade.

Bom, tenho que dizer que esse ato é viciante e você vai deixá-lo ganhar muitas outras vezes. E tudo bem, pois quando ele começar a brincar com outras crianças, vai acabar entendo que não podemos mais interferir nos resultados, e que eles devem se esforçar.

Durante algum tempo você vai achar que essa equação é simples. Ele ganha, fica feliz. Ele perde, chora, fica triste, você conversa e explica que faz parte do jogo. Que ele deve se esforçar mais da próxima vez para ganhar, mas o importante é gostar da brincadeira enquanto se joga.

É amiga, mas a equação sempre dificulta, assim como nas aulas de matemática. Chega o momento em que o ganhar e perder está relacionado a um time ou atleta que seu filho torce, e mesmo ele compreendendo que não está dentro de campo, a tristeza de ver o time perder vai parecer não ter fim para eles e para você. Explico.

Hoje como de costume nossa família começou a assistir o jogo de futebol do nosso time. Eu e meu marido, para falar a verdade. Muita emoção, pontos em jogo e muita festa na cidade. Meu filho mais velho, que não se interessava muito em assistir os jogos sentou ao meu lado, e um pouco tempo depois o time adversário fez um gol. E outro logo em seguida. Isso já estava me chateando bastante pois o jogo já estava quase acabando, mas quando olhei para meu filho, simplesmente surtei. Fiquei petrificada.

A maternidade insana estava ali personificada ao meu lado me dando um soco no estômago. De um lado a televisão, e do outro meu filho com os olhos cheios d’água e com todos os dedos da mão cruzados torcendo para um resultado impossível. Meu coração que até aquele momento sofria por meu time estar perdendo, parou. Eu queria teletransportar para o campo e fazer uma séria ameaça para que os jogadores não fizessem aquela gotinha de lágrima do meu filho cair. Se ela caísse, eu iria desmoronar.

Imagem: Huffigton Post
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Em um impulso, sugeri trocar de canal, ele não quis.

Então, comecei a explicar que nem sempre ganhávamos, como no jogo de damas, e ele me disse com voz embargada e com todas as letras que aquela conversa irritava ele. Acontece que nada mais no mundo me importava a não ser aqueles dedos cruzados e aquele olho triste cheio de lágrimas não derramadas e eu precisava fazer alguma coisa.

Eu tive que sair de perto, fui para o outro canto da sala mas não tirava o olho dele. Sabia que não podia falar nada porque só iria piorar. Torci como nunca havia torcido na minha vida, mas para o jogo acabar logo. E quando o jogo acabou, ele ainda ficou um tempo cabisbaixo e sem querer conversar com ninguém.

Como eu quis que aquele jogo fosse entre ele e eu. Como eu quis poder mudar aquele resultado para ver ele feliz. Mesmo sabendo que as frustrações fazem parte da vida e que elas ensinam muito, minha maternidade insana não quis saber da “moral da história”. Ela quis tirar aquela tristeza do coração do meu filho, e isso eu não pude fazer.

Vou dizer, acho que nunca mais vou esquecer do dia de hoje, pois sei que ele é só o começo de uma relação de amor e ódio pelo time dele. Eu sei que ele vai beijar o emblema do time muitas vezes, e jogar a camisa no chão outras muitas. Vai fazer juras de amor e também dizer (da boca para fora) que nunca mais vai torcer. Eu sei, eu sou assim. E talvez seja eu a culpada por fazer ele se apaixonar por um time de futebol.

Mas no dia que ele torcer todos os seus dedos novamente para a sorte chegar e ela vier, ah como eu quero, como eu quero muito estar do lado dele para ver a mágica acontecer e compensar esse dia que mais serviu para ser esquecido.

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