Nascemos prontos para sermos pais, mas não estamos prontos para educar

Por Aline De Rosa

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Imagem: Pexels

A gente estuda desde muito pequeno. Estuda para as provas do colégio para ingressar numa boa faculdade, para uma entrevista de emprego, fazer uma pós-graduação e até para montarmos roteiros de viagem e gastronomia. E, ainda, acredita-se que não há necessidade de estudar para uma tarefa tão importante quanto educar uma criança para o mundo.

Nascemos prontos para procriar, mas não estamos necessariamente prontos para lidar com os desafios diários que um serzinho em desenvolvimento nos apresenta.

Os choros da madrugada, amamentação. Depois, a alimentação chega trazendo várias dúvidas se estamos, ou não, no caminho certo. Virando a esquina começam as birras, gritos, agressividade. Parece que a criança se transforma e, de repente, a resposta para tudo que dizemos é “não”.

Apenas seguir a nossa intuição ou replicar aquilo que foi feito conosco na infância não é o suficiente. É preciso, sim, estudar. Entender as fases de desenvolvimento físico, cognitivo e espiritual. Precisamos compreender o momento que nossos filhos estão passando para que possamos oferecer o apoio e desenvolvimento necessário para que eles tragam sua potencialidade à tona.

Limites claros e objetivos, coerência entre o que falamos e fazemos são peças fundamentais de um desenvolvimento integral saudável. Os limites ajudam as crianças se conhecerem e o mundo ao seu redor. O limite é uma referência de vida.

Ensinamos limites quando orientamos uma criança de 2 anos a dar a vez no balanço, quando dizemos que é hora de ir embora e cumprimos com nossa palavra, quando não damos um brinquedo da loja por sabermos que a criança já tem muitos em casa. Ou, também, quando não permitimos agressão, quando dizemos para falar baixo e quando colocamos nosso filho para dormir todo dia no mesmo horário.

No entanto, se fosse fácil trabalhar esses limites diariamente, provavelmente não estaria aqui escrevendo esse texto. Sabemos que não é simples. Muitas vezes estamos cansados, irritados com algo do trabalho, tristes com algum ocorrido e, simplesmente, não conseguimos nos conectar com o que a criança verdadeiramente precisa.

Em outros casos, castigamos e punimos simplesmente porque desconhecemos que existem outras ferramentas efetivas de educação baseadas no respeito mútuo, como a Disciplina Positiva.

Acreditamos, equivocadamente, que quando fazemos a criança sofrer, por meio de ferramentas autoritárias como castigo, isolamento, punição, estamos a ensinando sobre valores de vida.

Já está comprovado que essa técnica não gera efeitos positivos a longo prazo. Não desenvolve adultos seguros, com autoestima, autoconfiança, capazes de expressas seus sentimentos com segurança. Pelo contrário, o autoritarismo e até mesmo a permissividade (não estabelecer limites claros) podem desenvolver várias crenças limitantes como: submissão a situações e ambientes tóxicos, conformidade ou vergonha de expor o que sente.


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Castigos não ensinam causa e consequência. Não faz sentido para uma criança de primeiro setênio (de 0 a 7 anos), por exemplo, perder o direito de ir brincar no parquinho com os amigos porque ela arremessou seu prato de comida no chão. Isso não é lógico, é totalmente arbitrário. Lógico seria a criança limpar o que sujou.

O que acontece é que, aparentemente, o castigo, a punição (tirar algo da criança) e a ameaça funcionam de forma imediata. Geralmente, a criança para de ter o mau comportamento. Mas é fácil observar nesses casos que ela voltará a ter o mau comportamento em outro momento ou vai cair numa disputa de poder com os pais. E, ainda, crianças mais sensíveis podem se retrair, se mostrando “obedientes” a tudo que os adultos solicitam, sendo que, na verdade, estão extremamente desencorajadas num ambiente autoritário onde não há espaço para diálogo e busca por solução em conjunto. Essa criança pode crescer com a crença de que ela é inadequada e aquilo que sente não tem valor.

Quando uma criança está choramingando, puxando sua roupa, tentando falar mais alto que você, gritando, sei que a nossa vontade pode ser gritar de volta, colocar de castigo, bater. Mas o que isso estaria ensinando à ela?

A Disciplina Positiva me ensinou um mantra que uso em todo momento de crise com meus filhos Gabriel e Amanda: “ele não quer me irritar, ele está pedindo ajuda”.

Isso mesmo! Uma criança que se comporta mau está pedindo a sua ajuda. Ela não faz isso por um motivo bobo ou fútil. Ela está sofrendo, mesmo que pareça chorar lágrimas de crocodilo.

Que tal tentar um abraço? Ou parar tudo que está fazendo naquele instante, se abaixar, olhar em seus olhos e dizer: “eu quero muito te ouvir, o que está acontecendo?”

Será que o seu filho se comporta mais intensamente assim justamente naquela período em que estamos mais ocupados, angustiados ou ansiosos? Justamente quando damos menos atenção às suas necessidades?

Quando seu filho sai correndo de perto de você quando estão no shopping, ao invés de brigar ou bater, que tal ter uma conversa: “eu entendo que você quer correr” (valide o sentimento). “Parece mesmo muito legal correr por esses corredores” (empatia – quando você era criança provavelmente se sentia assim). “Quando eu era pequena também gostava de sair assim, sem olhar para trás” (compartilhe uma historia sua). “Aqui no shopping não é o melhor lugar para isso. É perigoso e a gente pode se perder” (sua visão da situação). “O que podemos fazer então para solucionar essa questão?” (dê a oportunidade de a criança pensar numa solução em conjunto com você).

O grande objetivo dessas ferramentas é ajudar a criança a desenvolver sua bússola interna, para que ela entenda aos poucos o que é certo e errado, bom e ruim. E que possa tomar suas decisões da melhor forma, mesmo quando não houver um adulto por perto.

Isso acontece quando somos empáticos e criamos uma conexão com as crianças. O aprendizado e desenvolvimento do seu potencial, acontece quando ela se sente aceita, útil e importante.

Aline de Rosa (@maequequeroser) é educadora parental certificada pela Positive Discipline Association, com foco na primeira infância. Idealizadora do projeto Acolhedora de Mães, Aline ministra cursos por todo o Brasil destinados a pais, educadores/ professores e pessoas que convivem com crianças nessa faixa etária e que desejam conduzir a educação com mais clareza, segurança e menos culpa.